Isenções de tarifaço limitam impacto para mercado, mas há alertas: o que olhar agora?

Painel eletrônico mostra cotações de ações na B3, em São Paulo
Como esperado, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) confirmou, ontem, a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida entra em vigor em 22 de julho.
No geral, analistas de mercado ouvidos pelo InfoMoney avaliam que boa parte da medida já estava precificada nos ativos, embora os desdobramentos sobre inflação, juros e atividade econômica ainda sejam motivo de atenção.
Apesar da decisão, bens como petróleo, café, carne bovina, aeronaves e celulose ficaram de fora da nova cobrança.
“Na prática, grande parte dos produtos mais importantes da pauta exportadora brasileira não será taxada pela nova medida. Logo, o impacto macroeconômico será limitado, em nossa avaliação”, apontou a XP.
Também na visão da Ágora Investimentos, a confirmação da tarifa segue no radar dos investidores, mas a ampliação da lista de produtos isentos pode reduzir parte dos impactos esperados sobre os ativos de risco domésticos.
Segundo o Bradesco BBI, os efeitos sobre as commodities tendem a ser limitados. A instituição destaca que exportações brasileiras de minério de ferro, cobre e alumínio para os Estados Unidos são pouco relevantes e também foram isentas. No setor de celulose, embora os EUA representem cerca de 15% das exportações brasileiras neste ano, a maior parte dos produtos foi excluída da tarifa adicional.
O banco também ressaltou que a lista de exceções abrange mais de 2.100 produtos, incluindo carne, café e peças para aeronaves, o que elimina impactos financeiros para a Embraer (EMBJ3), cuja produção e componentes ficaram fora das novas cobranças.
Apesar do alívio proporcionado pelas isenções, alguns segmentos permanecem sob pressão. Setores como etanol, máquinas agrícolas, bens industriais, açúcar, tabaco, tecidos e calçados aparecem entre os mais vulneráveis à nova política comercial americana.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a abertura do mercado mostrou que os investidores já esperavam a medida, com perda modesta – o mercado piorou após a abertura dos EUA, em meio à queda de ações de chips por ele. Segundo ele, o foco agora estará na evolução das negociações entre Brasília e Washington. Na avaliação do especialista, empresas ligadas à siderurgia, metalurgia, máquinas e equipamentos podem sofrer mais, enquanto bancos, concessionárias, utilities e companhias voltadas ao mercado doméstico tendem a ser menos impactadas.
Na mesma linha, André Matos, CEO da MA7 Negócios, afirma que o mercado tende a reagir mais ao tamanho da lista de exceções do que ao percentual de 25% em si. Segundo ele, o grupo protegido inclui justamente produtos com maior peso nas exportações brasileiras para os EUA, como carne bovina, café, minérios, aeronaves e produtos farmacêuticos.
Já Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e negócios da Pilar Capital, estima impacto relativamente pequeno sobre a atividade econômica, com perdas entre 0,1 ponto percentual (pp) e 0,2 ponto do Produto Interno Bruto (PIB). Para ele, como agronegócio e aviação ficaram fora da medida, os efeitos devem se concentrar nos manufaturados, que representam cerca de US$ 15 bilhões das exportações brasileiras.
O principal risco, contudo, pode não estar diretamente na balança comercial. Especialistas destacam que uma redução das exportações pode fortalecer o dólar frente ao real e gerar pressões inflacionárias domésticas, dificultando futuros cortes da taxa Selic.
Essa preocupação é compartilhada por Marcelo Bassani, economista e sócio-fundador da Boa Brasil Capital. Segundo ele, uma eventual adoção da Lei da Reciprocidade pelo Brasil, com aumento de tarifas sobre produtos americanos, exigirá cautela.
Bassani lembra que diversos insumos e produtos consumidos no país são importados dos Estados Unidos. Dessa forma, uma elevação de tarifas poderia pressionar ainda mais a inflação brasileira, atualmente acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central.
“O consumidor final acaba pagando essa conta”, afirma o economista. Na avaliação dele, um aumento da inflação poderia pressionar os juros futuros, manter a Selic elevada por mais tempo e reduzir o ritmo de crescimento da economia.
Câmbio
O câmbio também segue no radar dos investidores. Para Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX, os dados recentes de inflação nos Estados Unidos vieram mais fracos que o esperado, reduzindo as apostas em novos aumentos dos juros americanos e ajudando a aliviar a força do dólar.
Ainda assim, o especialista ressalta que a confirmação das tarifas sobre produtos brasileiros e as tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã continuam sendo potenciais fontes de volatilidade para os mercados financeiros.
Na avaliação de gestores e especialistas, o aumento das tarifas tem uma forte componente política. Bruno Corano, economista da Corano Capital, observa que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil e que a justificativa apresentada por Washington extrapola questões estritamente comerciais, envolvendo temas como Pix, desmatamento e regulação.
Para Corano, a ausência de um canal direto de diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump reduz as chances de uma reversão rápida das medidas.
Enquanto isso, investidores acompanham a capacidade das companhias brasileiras de se adaptar ao novo cenário. Para Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, o principal fator daqui para frente será a habilidade das empresas em diversificar mercados, reorganizar cadeias comerciais e preservar margens de rentabilidade.
Associações preocupadas
Cabe ressaltar que associações do setor, contudo, destacaram que a decisão dos EUA indica um resultado “muito negativo” para a relação bilateral.
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Na avaliação da Amcham Brasil, a medida, que entra em vigor a partir de 22 de julho, coloca o Brasil entre os países com condições mais restritivas no mundo para acessar o mercado americano, com tendência a afetar duramente mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio. “Esse tratamento contrasta com o crescente superávit comercial dos EUA com o Brasil – de US$ 41,8 bilhões em bens e serviços em 2025 – e com o baixo patamar das tarifas efetivamente aplicadas pelo Brasil aos produtos americanos”, observa, em nota.
A Amcham também considera que as novas taxas tendem a elevar custos para as empresas e consumidores americanos, reduzir a competitividade das indústrias que utilizam insumos brasileiros e ampliar a dependência de fornecedores asiáticos, com potencial para deteriorar o déficit comercial dos EUA com países daquela região. Além disso, segundo a Câmara, limita as oportunidades de cooperação entre Brasil e EUA em áreas estratégicas, como minerais críticos, energia, economia digital e propriedade intelectual.
Já a Fiesp destacou que a decisão é especialmente prejudicial por ser aplicada de forma unilateral, o que reduz significativamente a competitividade do País perante concorrentes globais.
“Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”, diz a nota.
Ainda de acordo com a entidade, “a retaliação comercial poderia ter sido evitada com uma condução técnica e pragmática, como buscou a Fiesp durante as audiências públicas nos EUA em outras oportunidades no último ano”.
O governo brasileiro repudiou as tarifas e afirmou que tomará medidas para proteger sua economia dos seus efeitos.
“Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país”, afirmou o governo em comunicado. “Continuaremos a diversificar nossas parcerias comerciais e a abrir novos mercados para nossos produtos.”
(com Estadão Conteúdo e Agência Globo)
Fonte Original
InfoMoney
16 de julho de 2026
Leia a matéria original: https://www.infomoney.com.br/mercados/tarifaco-dos-eua-lista-de-isencoes-pode-limitar-impacto-para-ativos-brasileiros/




